Permaneceu sentado por alguns minutos, refletindo sobre a situação. Movia
o olhar para todos os lados, apreendendo os detalhes do ambiente. Detalhes
demais. Não havia vento, mas percebia o calor do sol, o movimento do ar até
seus pulmões, a textura de suas calças (enquanto se debruçava sobre os joelhos).
Levantou e foi novamente até o corpo, seco e sem odor. Examinou sem tocar, em
busca de uma bolsa ou algum volume que evidenciasse uma carteira. Nada! Não
seria possível obter qualquer informação sobre aquela pessoa. Pendurado no
pescoço do corpo, mas voltado às costas, não ao peito, havia uma pequena placa
de metal, destas que se vê em soldados. Chegou mais perto para ver se poderia
ler algo, mas apesar do imenso brilho da peça (parecia perfeitamente polida,
sem qualquer evidência da passagem do tempo, como se observava no restante do
corpo), nada estava escrito. Tomado pela raiva de retornar àquele lugar e sem
qualquer compreensão do motivo, lançou bruscamente a perna em direção ao corpo,
mas deteve-se antes de atingir o alvo. De algum modo sentiu que não seria justo
destruir aquele corpo, símbolo da luta pelo direito de continuar existindo.