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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

#Vazio - A Fome das Sombras


Tinha plena consciência tanto do objeto ao qual desejava remeter quanto da posse de seu nome, mas naquele momento crucial, o nome se escondida em algum canto de seu espírito. Semanas depois o nome brotou-lhe da alma, como se fosse novo, mas revestido da frustrante certeza de que sempre estivera lá. Lembrou-se da palavra “engrenagem” por conta destes eventos, pois eram análogos ao que experimentava ali, sozinho no escuro. Por um momento sentiu-se possuidor de todos os mistérios, conhecedor da causa primeira e do motivo último. Por um breve momento soube. Mas o momento passou. Restava apenas uma sombra. Algum tipo inexplicável de certeza de que havia tocado uma verdade, mas a verdade em si, ignorava. Se dominasse o próprio corpo teria suspirado, mas nem isto lhe foi permitido.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (21)


Não desejando transformar aquilo em um diário, optou pela terceira pessoa. O texto fluía enquanto o tempo passava. A sala estava em chamas, tomada pelas cores avermelhadas do sol poente, mas ele desprezava a fome que pedia pelo jantar. Desejava escrever. As letras escorriam de suas mãos e alimentavam o papel enquanto o ato criativo alimentava sua própria alma. Uma batida de porta em alguma sala no corredor interrompeu seu frenesi. Percebeu ter escrito mais de 20 páginas. “Deve bastar, por hoje!”. Revolveu as folhas e retornou à primeira. Encostou-se com mais conforto no leito para verificar o que produzira:

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (20)


Passou a imaginar se haveria qualquer conexão entre as duas realidades. Concluiu que não valeria a pena fugir do hospital e caminhar para o Leste, uma vez que não havia por ali qualquer movimento para o Oeste.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (19)


- Então sou um poeta?
- Começo a duvidar de que esteja levando a sério esta nossa conversa?
- Pelo contrário. Estou achando tudo isto muito interessante!
- O fato é que não se tem omeletes sem quebrar os ovos! Você é, digamos, uma criança que ignora o sabor da omelete! Eu também! A única diferença entre nós é que você está quebrando os ovos.
- Gostei disto!
- Eu também!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (18)


Ele então caminhou até a janela, esperando que o quadro vivo e mudo desse alguma resposta plausível. A dúvida do homem do deserto acompanhara o médico durante toda a vida, levando-o a buscar no espírito dos outros a resposta que não encontrava no seu. Não queria deixar Marcus sem resposta, mas não pretendia criar algo vazio.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (17)


- Devo supor que fiz tudo isto com a mesma fivela de cinto enquanto estava amarrado ou o flagelo faz parte do seu tratamento?
A seriedade de um dos enfermeiros foi rompida com um sorriso, o qual foi abreviado pela nítida desaprovação do segundo. Com um gesto quase imperceptível do médico, os dois rapazes saíram do ambiente, deixando-os a sós.
- Compreenda que nenhum tipo de interferência física faz parte do nosso trabalho. Todas estas lesões foram-lhe infligidas por você mesmo.
- Eu jamais faria uma coisa destas!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (16)

O homem de branco, congelado na porta, exibiu insegurança pela primeira vez desde sua apresentação inicial. Era difícil determinar se seguiria com o diálogo ou se sairia correndo daquele quarto. Parecia não ter o que dizer. Instantes depois, recuperou a firmeza e decisão e pediu, com um gesto, que o paciente se sentasse. Demorou quase um minuto em silêncio, como se escolhesse bem cada palavra que viria a empregar e, finalmente, iniciou seu discurso:
- Em primeiro lugar, eu quero que tenha consciência que apesar de tudo, algum progresso aconteceu, já que este foi seu menor período desacordado desde que chegou aqui.
Calou-se, provavelmente esperando que o homem ferido questionasse sobre o período, mas a pergunta não foi feita. Seguiu:

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (15)

Jogou a cabeça para trás, afundando-a no travesseiro espesso. De alguma forma sentia-se enfurecido contra aquela sala e aquele médico, pois autenticavam sua loucura. Percebeu que não interessaria qualquer discussão sobre a realidade de um mundo e a falsidade do outro, tampouco a capacidade de identificar qual das duas realidades era, de fato, Real, estava enlouquecendo, afinal, um dos mundos não deveria estar lá. O médico fez alguns comentários sobre seu estado clínico, mas foi ignorado. Percebendo que falava sozinho, decidiu sair, dando ao homem da cama tempo para refletir e compreender onde estava. Poucos instantes depois a enfermeira entrou no quarto, com expressão contrariada. Começou a desafivelar as tiras de couro, resmungando algo contra o médico. Saiu rapidamente da sala.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (14)

Algo rasgou sua calça e o arranhou na batata da perna direita. A dor, equivalente à de um tiro de raspão, levou-o a emitir um gemido abafado. Os eventos que se seguiram o fizeram desejar profundamente que fossem disparos de armas, mas não eram. Sua expressão de dor foi abafada - insuficientemente, diga-se – por um receio inconsciente de chamar a atenção, mas chamou. Imediatamente sentiu algo agarrando-o no calcanhar da perna esquerda. O desespero impedia qualquer raciocínio, ainda mais na ausência de algo para segurar. Não era possível identificar se eram mãos ou garras, mas eram fortes, pois começaram a arrastá-lo para o lado – suspeitou que fosse para o Oeste – com força suficiente para suspender do solo metade do seu corpo, deixando-o na diagonal, com ombros, braços e cabeça ao chão. Outros cortes começaram a ocorrer em suas pernas e costas, no sentido de seus pés. Sentia trancos ao ser arrastado, além de ouvir alguns urros baixos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (13)

A perturbação na água estava mais distante do que parecia e após quase trinta minutos de corrida na velocidade máxima permitida por cada um dos dois corpos, caíram ambos de joelhos no chão.
- Não é possível. Essa coisa parece fugir da gente!
- Ou isso ou está mesmo muito longe.
Nenhum dos dois tinha fôlego para qualquer outra palavra. Ficaram ali por alguns minutos, respirando, descansando e viajando cada qual em seus próprios pensamentos. Habituado a acompanhar o sol, Marcus notou que este já havia decido uns quarenta e cinco graus, o que indicava que era aproximadamente três horas da tarde. Apesar do calor e da total ausência de nuvens, a situação não era insuportável. A água das margens do oceano estava sempre fresca, compensando a ausência de vento. A umidade do ar não era alta, facilitando a atividade refrigeradora do suor. Marcus percebeu que Valdomiro se levantara, sendo claro que já era hora de continuar em frente, ainda que nenhum comando para isto tenha sido dado. Juntou-se ao companheiro e seguiram, ansiosos, mas bem menos impetuosos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (12)


Seguiram caminhando por quase uma hora, sem tecer qualquer comentário e sem a mínima alteração na paisagem. Por vezes, um apertava o passo e, à frente do outro, bebia água e molhava o rosto enquanto esperava ser alcançado. A cada passo, com o suor brotava da pele também a dúvida se valia a pena o esforço. Marcus imaginava que poderiam passar dias sem nada encontrar, se é que havia qualquer coisa a ser encontrada, uma vez que não se podia perceber qualquer alteração na paisagem à frente, enquanto a muralha se fundia com o horizonte. Como se adivinhasse o pensamento do companheiro, Valdomiro quebrou o silêncio:

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (11)


Valdomiro havia removido o canivete da ponta do cabo para a limpeza do peixe. Com o objeto na mão, com se fosse uma faca, apontou para Marcus dizendo:
- Sabe, Rapaz? Eu pensei exatamente a mesma coisa, no primeiro dia aqui. Em um dia eu desci e subi a estrada por onde você veio e a única coisa que vi foi morte. Depois eu fui “berando” esta praia pra lá (apontou para o sul) por uns dez dias, sem achar nada. Então voltei pra cá!
- E para o Norte? Questionou Marcus apontando o lado oposto. E para o Leste?
- Não vi qualquer razão em ir pra lá. Disse com um movimento do rosto, apontando para o norte com o queixo; depois mostrou o leste com o dedão para trás do corpo (estava de costas para a água); não nado tão bem para ir por aí, se você quer saber? Aqui é legal. Não faz tanto frio à noite e o Sol ainda não me deixou vermelho.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (10)


A fome consolidou em sua mente uma certeza prática. Naquele mundo varrido, não teriam o que comer. Levantou-se convicto de que a certeza de Valdomiro sobre a realidade daquele lugar o faria compreender a necessidade imediata de ação, não obstante a dor em seu coração. Aproximou-se do homem, imóvel a mirar o horizonte leste.
- Me perdoe. É difícil saber o que pensar de uma situação como a nossa. O que sei é que precisamos encontrar algo para comer, com urgência.
Não era capaz de imaginar por onde caminhavam os pensamos do homem da lança, o qual começou a falar:

terça-feira, 25 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (9)


Concentrados na imagem podiam perceber o movimento da sombra, garantia do movimento do próprio Sol no céu, por mais que a lentidão lhe fizesse parecer estático. Desaparecida a sombra, Valdomiro olhou para o Leste, e Marcus seguiu o exemplo. No espelho d’água, impecavelmente polido em decorrência da absoluta estática do ar foi possível notar alguma agitação, lá no extremo leste. Apenas uma suave e distante oscilação, perceptível por alterações nas tonalidades do azul, antes tão perfeitamente refletido do céu que era quase impossível perceber onde acabava a água. A imperfeição no espelho parecia se mover, como uma mancha que seguia para os lados e para o Oeste. Marcus então percebeu que a agitação na água se aproximava rapidamente. Era o Vento. Não parecia muito forte, pois abalava a água sem levantar ondas. Quando não existia mais espelho, apenas viva água em suas pequenas e quase infinitas ondulações, Marcus sentiu a brisa tocar seu rosto. A brisa começou a aumentar de intensidade, ainda que não se ampliasse a agitação na água. Nenhuma onda aconteceu quando o vento atingiu tamanha força que quase o desequilibrou. Valdomiro o cutucou e disse:

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (8)


Com um salto pra trás, enfiando-se na água até a cintura, protestou:
- O que é isto? Você enlouqueceu?
- Você tinha tanta certeza de que tudo aqui é um sonho que pensei que um beliscão não bastaria! E riu com uma mão na barriga como se fosse o maior, se não o último, comediante do planeta.
Ignorando qualquer possibilidade de graça naquela situação e decidido a abandonar imediatamente o homem da “lança”, Marcus pôs-se a caminhar para no Norte, andando paralelamente à estrada, ainda com os pés na água e os sapatos nas mãos. Tomando consciência de que sua ação não foi nada bem vinda, chamou:

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (7)


Marcus ficou aterrorizado. Jamais esteve em situação semelhante. Nunca fora sequer furtado. Temeu desesperadamente por sua vida. Não ousou desafiar a lamina, acusando-a de ilusória.
- Estou apenas caminhando. Não sigo ninguém. Nem imaginava existir alguém para seguir. Sentiu aumentar a pressão da fina ponta em sua nuca. Não percebeu, mas um filete de sangue escorreu até o colarinho de sua camisa cinza.
- Imaginava não existir alguém? E por que não haveria? Você está aqui, não está?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (6)


Permaneceu sentado por alguns minutos, refletindo sobre a situação. Movia o olhar para todos os lados, apreendendo os detalhes do ambiente. Detalhes demais. Não havia vento, mas percebia o calor do sol, o movimento do ar até seus pulmões, a textura de suas calças (enquanto se debruçava sobre os joelhos). Levantou e foi novamente até o corpo, seco e sem odor. Examinou sem tocar, em busca de uma bolsa ou algum volume que evidenciasse uma carteira. Nada! Não seria possível obter qualquer informação sobre aquela pessoa. Pendurado no pescoço do corpo, mas voltado às costas, não ao peito, havia uma pequena placa de metal, destas que se vê em soldados. Chegou mais perto para ver se poderia ler algo, mas apesar do imenso brilho da peça (parecia perfeitamente polida, sem qualquer evidência da passagem do tempo, como se observava no restante do corpo), nada estava escrito. Tomado pela raiva de retornar àquele lugar e sem qualquer compreensão do motivo, lançou bruscamente a perna em direção ao corpo, mas deteve-se antes de atingir o alvo. De algum modo sentiu que não seria justo destruir aquele corpo, símbolo da luta pelo direito de continuar existindo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (5)


Já com sono e com evidente dificuldade de seguir o raciocínio no médico, o homem da cama levantou o olhar para o relógio e descobriu que já se aproximavam das 22 horas. Retornando o olhar ao médico notou que seu cansaço o desapontava. Havia alguma tensão no olhar do médico, enquanto aguardava a sequência da conversa. Subitamente recordou suas palavras: “Nesta tarde você abriu os olhos pela primeira vez em quinze dias.”.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (4)


Ele levantou e encarou o homem da cama.
- Façamos o seguinte. Por que você não escolhe um nome temporário para você e outro para mim? Assim poderemos dar maior naturalidade para nossa conversa, sem comprometer o meu propósito de não lhe ENSINAR quem você é.
O homem da cama pareceu aceitar bem os esclarecimentos do médico, embora o frustrasse a idéia de estar a tanto tempo no hospital. Pensou um pouco e disse:

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (3)


- Não sou seu amigo! Estou falando com um estranho em um lugar estranho! Não espere paciência de minha parte!
- De modo algum somos estranhos! Você me conhece muito bem e já conversamos muito sobre muita coisa. Mas como não sou eu o foco principal desta conversa, diga-me, quem é você?