quinta-feira, 24 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (14)

Algo rasgou sua calça e o arranhou na batata da perna direita. A dor, equivalente à de um tiro de raspão, levou-o a emitir um gemido abafado. Os eventos que se seguiram o fizeram desejar profundamente que fossem disparos de armas, mas não eram. Sua expressão de dor foi abafada - insuficientemente, diga-se – por um receio inconsciente de chamar a atenção, mas chamou. Imediatamente sentiu algo agarrando-o no calcanhar da perna esquerda. O desespero impedia qualquer raciocínio, ainda mais na ausência de algo para segurar. Não era possível identificar se eram mãos ou garras, mas eram fortes, pois começaram a arrastá-lo para o lado – suspeitou que fosse para o Oeste – com força suficiente para suspender do solo metade do seu corpo, deixando-o na diagonal, com ombros, braços e cabeça ao chão. Outros cortes começaram a ocorrer em suas pernas e costas, no sentido de seus pés. Sentia trancos ao ser arrastado, além de ouvir alguns urros baixos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (13)

A perturbação na água estava mais distante do que parecia e após quase trinta minutos de corrida na velocidade máxima permitida por cada um dos dois corpos, caíram ambos de joelhos no chão.
- Não é possível. Essa coisa parece fugir da gente!
- Ou isso ou está mesmo muito longe.
Nenhum dos dois tinha fôlego para qualquer outra palavra. Ficaram ali por alguns minutos, respirando, descansando e viajando cada qual em seus próprios pensamentos. Habituado a acompanhar o sol, Marcus notou que este já havia decido uns quarenta e cinco graus, o que indicava que era aproximadamente três horas da tarde. Apesar do calor e da total ausência de nuvens, a situação não era insuportável. A água das margens do oceano estava sempre fresca, compensando a ausência de vento. A umidade do ar não era alta, facilitando a atividade refrigeradora do suor. Marcus percebeu que Valdomiro se levantara, sendo claro que já era hora de continuar em frente, ainda que nenhum comando para isto tenha sido dado. Juntou-se ao companheiro e seguiram, ansiosos, mas bem menos impetuosos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

#Vazio - Outra Manhã (12)


Seguiram caminhando por quase uma hora, sem tecer qualquer comentário e sem a mínima alteração na paisagem. Por vezes, um apertava o passo e, à frente do outro, bebia água e molhava o rosto enquanto esperava ser alcançado. A cada passo, com o suor brotava da pele também a dúvida se valia a pena o esforço. Marcus imaginava que poderiam passar dias sem nada encontrar, se é que havia qualquer coisa a ser encontrada, uma vez que não se podia perceber qualquer alteração na paisagem à frente, enquanto a muralha se fundia com o horizonte. Como se adivinhasse o pensamento do companheiro, Valdomiro quebrou o silêncio: